
Chegada à praia, um conjunto de cheiros invade os meus pulmões. Todo aquele perfume da maresia, do salgado do mar e a mistura das algas, envolvendo a areia que enrola nas ondas. Ali o mar, ao longe, infinito e indefinido. Corro sem cessar até lá chegar. Dou por mim dentro de água, azulada com areia misturada, fria e com ondulação extremamente forte. Deixo que as ondas levem o meu corpo, como se fosse uma alga sem destino apenas levada pela corrente. De repente, fecho os olhos e mergulho. O impacto do frio da água na minha cara leva-me para outras dimensões. Ao suster a respiração, imagino-me por segundos, um animal selvagem com total liberdade, mergulhado em todos os perigos que o mar e que a vida tem. Imagino-me a rainha do mar, em que todos os animais que me rodeiam devem-me obediência. Tenho o controlo das ondas, do vento, de todos os minúsculos seres. Tudo me pertence. Então, decido transformar-me numa sereia, metade mulher, metade baleia. Sendo eu a sereia mais bela de todos os mares, com uma cauda comprida e reluzente, com o corpo em sintonia no nado, sendo o ponto de balanço a minha bela cauda. No meu coração, bem marcado e indispensável permanece o cheiro e o sabor do salgado do meu mar, este que me traz lembranças únicas. Mas no meu reino, belo e selvagem, com um destino por viver e escrever, algo no coração da sereia em que me transformei, permanece vazio e intacto, falta uma pessoa que me preencha da maneira que eu desejo. Da maneira que ao longo de mais de quatro meses sonhei e esperei. Simplesmente essa pessoa fugiu e eu neste momento não sei onde a encontrar ou como a procurar. E sem aguentar mais, o ar começa a faltar-me e decido emergir na água e logo a realidade me confronta. Olho à minha volta, olho para mim mesma e acordo. Sou eu de novo, já não tenho reino, já não vivo no mar, já não sou uma sereia, mas sim Rita Pereira de 13 anos, sozinha e vazia por dentro como a sereia, no mar infinito de águas geladas e fortes ondas, uma grande sonhadora, sem dúvida e com um destino por escrever, sem saber o que fazer.